Plano Diretor da
Reforma do Aparelho do Estado. Presidência da Republica : (pag. 9 – 68).
Republica, Presidência.
Plano Diretor da Reforma do Aparelho do
Estado. Brasília: 1995.
“A sociedade, por seu
turno, manifesta seus anseios e demandas por canais formais ou informais de
contacto com as autoridades constituídas. É pelo diálogo democrático entre o
Estado e a sociedade que se definem as prioridades a que o Governo deve ater-se
para a construção de um país mais próspero e justo.” (p. 9);
“A crise do Estado teve
início nos anos 70, mas só nos anos 80 se tornou evidente. Paralelamente ao
descontrole fiscal, diversos países passaram a apresentar redução nas taxas de
crescimento econômico, aumento do desemprego e elevados índices de inflação.”
(p.10);
“A Primeira Grande
Guerra Mundial e a Grande Depressão foram o marco da crise do mercado e do
Estado Liberal. Surge em seu lugar um novo formato de Estado, que assume um
papel decisivo na promoção do desenvolvimento econômico e social.” (p.10);
“No Brasil, embora
esteja presente desde os anos 70, a crise do Estado somente se tornará clara a
partir da segunda metade dos anos 80. Suas manifestações mais evidentes são a
própria crise fiscal e o esgotamento da estratégia de substituição de
importações, que se inserem num contexto mais amplo de superação das formas de
intervenção econômica e social do Estado.” (p.11);
“A reforma do Estado
deve ser entendida dentro do contexto da redefinição do papel do Estado, que
deixa de ser o responsável direto pelo desenvolvimento econômico e social pela
via da produção de bens e serviços, para fortalecer-se na função de promotor e
regulador desse desenvolvimento.” (p.12);
“A reforma do aparelho
do Estado não pode ser concebida fora da perspectiva de redefinição do papel do
Estado e, portanto, pressupõe o reconhecimento prévio das modificações
observadas em suas atribuições ao longo do tempo.” (p.14);
“A administração
pública gerencial constitui um avanço e até um certo ponto um rompimento com a
administração pública burocrática. Isto não significa, entretanto, que negue
todos os seus princípios.” (p.16);
“A administração
pública gerencial inspira-se na administração de empresas, mas não pode ser
confundida com esta última. Enquanto a receita das empresas depende dos
pagamentos que os clientes fazem livremente na compra de seus produtos e
serviços, a receita do Estado deriva de impostos, ou seja, de contribuições
obrigatórias, sem contrapartida direta.” (p.16);
“No Brasil, o modelo de
administração burocrática emerge a partir dos anos 30. Surge no quadro da
aceleração da industrialização brasileira, em que o Estado assume papel
decisivo, intervindo pesadamente no setor produtivo de bens e serviços.”
(p.19);
“Em meados dos anos 70,
uma nova iniciativa modernizadora da administração pública teve início, com a
criação da SEMOR - Secretaria da Modernização. Reuniu-se em torno dela um grupo
de jovens administradores públicos, muitos deles com formação em nível de pós graduação
no exterior, que buscou implantar novas técnicas de gestão, e particularmente
de administração de recursos humanos, na administração pública federal.”
(p.20);
“Este retrocesso
burocrático foi em parte uma reação ao clientelismo que dominou o país naqueles
anos. Foi também uma conseqüência de uma atitude defensiva da alta burocracia
que, sentindo-se injustamente acusada, decidiu defender-se de forma
irracional.” (p.21);
“As distorções
provocadas pela nova Constituição logo se fizeram sentir. No governo Collor,
entretanto, a resposta a elas foi equivocada e apenas agravou os problemas
existentes, na medida em que se preocupava em destruir ao invés de construir.”
(p.22);
“A composição da força
de trabalho no setor público em 1992 (que não deve ter sofrido nenhuma alteração
substancial até o presente), no que se refere à sua distribuição entre as três
esferas de governo, mostra que os estados empregavam praticamente a soma (49%)
do que empregavam municípios (26%) e a União (25%).” (p.23);
“No esforço de
diagnóstico da administração pública brasileira centraremos nossa atenção, de
um lado, nas condições do mercado de trabalho e na política de recursos
humanos, e, de outro, na distinção de três dimensões dos problemas: (1) a
dimensão institucional-legal, relacionada aos obstáculos de ordem legal para o
alcance de uma maior eficiência do aparelho do Estado; (2) a dimensão cultural,
definida pela coexistência de valores patrimonialistas e principalmente
burocráticos com os novos valores gerenciais e modernos na administração
pública brasileira; e (3) a dimensão gerencial, associada às práticas
administrativas.” (p.25);
“As três dimensões
estão inter-relacionadas. Há uma tendência a subordinar a terceira à primeira, quando
se afirma que é impossível implantar qualquer reforma na área da gestão
enquanto não forem modificadas as instituições, a partir da Constituição
Federal.” (p. 25);
“O perfil da
distribuição de servidores em carreiras apresenta sérias distorções. Do total
de funcionários civis estatutários, cerca de 47% estão agrupados fora de
carreiras específicas, sem definição de atribuições, alocados no Plano de
Cargos e Carreiras - PCC. Ressalta-se, ainda, uma concentração de pessoal nos
níveis operacionais, sendo o quadro técnico, representante da inteligência do
Estado, bastante reduzido.” (p.28);
“A administração
pública brasileira, embora marcada pela cultura burocrática e regida pelo
princípio do mérito profissional, não chegou a se consolidar, no conjunto, como
uma burocracia profissional nos moldes weberianos.” (p.29);
“Além de explosivo do
ponto de vista fiscal, o sistema previdenciário público é hoje, do ponto de
vista social, um sistema injusto e desequilibrado, na medida em que aposenta o
servidor quando ele ainda possui plena capacidade para trabalhar e paga uma
aposentadoria ao funcionário muito acima da recebida no setor privado, que não
guarda correspondência com sua contribuição.” (p.32);
“As pessoas que começam
a servir ao Estado com idade relativamente avançada contribuem durante um
intervalo reduzido para o sistema previdenciário do setor público.” (p.33);
“Em primeiro lugar,
apenas uma minoria dos cargos são ocupados por não-servidores. Conforme podemos
ver pela Tabela 9, 75,5% dos ocupantes de DAS são servidores estatutários ou
das empresas públicas federais. (p.36);
“Os problemas até agora
analisados estão fortemente relacionados com sua dimensão institucional-legal,
dependendo, portanto, de reforma constitucional, ou de mudança na legislação
infra-constitucional, mas todos esses entraves estão diretamente relacionados
com a cultura burocrática existente no país, intensamente preocupada em evitar
as práticas clientelistas ou patrimonialistas. (p.37);
“O mecanismo por
excelência de motivação, na administração pública burocrática, é o da promoção
por mérito em carreiras formalmente estabelecidas. Através desse mecanismo, em
que o tempo, além dos cursos, a avaliação de desempenho e os exames são
essenciais, o administrador ascende lentamente na sua profissão.” (p.39);
“O aparelho do Estado
ou administração pública lato senso, compreende (a) um núcleo estratégico ou
governo, constituído pela cúpula dos três poderes, (b) um corpo de
funcionários, e (c) uma força militar e policial.” (p.41);
“A reforma do Estado
permitirá que seu núcleo estratégico tome decisões mais corretas e efetivas, e
que seus serviços - tanto os exclusivos, que funcionam diretamente sob seu
comando, quanto os competitivos, que estarão apenas indiretamente subordinados
na medida que se transformem em organizações públicas não-estatais - operem
muito mais eficientemente.(p.44);
“A estratégia da reforma
do aparelho do Estado está concebida a partir de três dimensões: a primeira,
institucional-legal, trata da reforma do sistema jurídico e das relações de
propriedade; a segunda é cultural, centrada na transição de uma cultura
burocrática para uma cultura gerencial; a terceira dimensão aborda a gestão
pública a partir do aperfeiçoamento da administração burocrática vigente e da
introdução da administração gerencial, incluindo os aspectos de modernização da
estrutura organizacional e dos métodos de gestão.” (p. 48);
“Esta segunda emenda
obedece rigorosamente o princípio da autonomia dos três poderes. Esta autonomia
foi concebida por Monstesquieu como um sistema de freios e contra-freios, para
evitar a prevalência de um poder sobre o outro.” (p.52);
“Só esse tipo de
cultura permite a parceria e a cooperação. Só através dela será possível
viabilizar não apenas as diversas formas de parceria com a sociedade, como
também a cooperação no nível vertical entre administradores e funcionários
públicos, entre governo e sindicatos de funcionários.” (p.54);
“Em paralelo, serão
implementadas ações na área de recursos humanos, que permitam o aperfeiçoamento
das capacidades gerenciais e técnicas do setor público, através de recrutamento
de pessoal estratégico, a partir de concursos e processos seletivos públicos
anuais para pequenos contingentes, caracterizando, desta forma, um processo
permanente de atualização dos quadros do aparelho do Estado.” (p.55);
“No médio prazo, a
expectativa de aprovação das emendas constitucionais e respectivas
regulamentações, das autorizações legislativas para a implementação das
organizações sociais, e o aprofundamento da implantação da nova cultura
gerencial, centrada em resultados, na competição administrada e baseada na
avaliação do desempenho, permitirão mudanças mais estruturais na direção
pretendida.” (p.57);
“Os planos de carreira
serão estruturados em classes hierarquizadas segundo a natureza e a
complexidade das tarefas, fazendo-se a distribuição escalonada dos cargos e
empregos entre as classes e a promoção na carreira será baseada em avaliação de
desempenho e aprovação em cursos específicos.” (p. 63);
“Os sistemas
administrativos voltados para a gestão pública abrangem áreas diversas: pessoal
civil, serviços gerais, organização e modernização administrativa, informação e
informática, planejamento e orçamento e controle interno.” (p.66);
“Estes sistemas têm
sido, independentemente das intenções de sua concepção inicial, voltados para
as necessidades operacionais da administração pública, tornando secundárias ou
inexistentes tanto as informações gerenciais quanto as de interesse público.”
(p.67);
“Aos ministérios
setoriais, finalmente, cabe o papel de parceiros, tanto no momento da
formulação, quanto no da implantação dos projetos, já que, a reforma acontecerá
nas diversas unidades organizacionais de cada segmento da administração pública
brasileira.” (p.68).
Nenhum comentário:
Postar um comentário